terça-feira, 14 de junho de 2011

Encontro Estadual de Formação do PT...


Em Porto Alegre, José Dirceu diz que Brasil será um dos grandes do mundo em 10 anos
Mesa de abertura, Eliane Silveira Sec Geral PT/RS; Raul Pont presidente PT/RS; Adriano Oliveira Sec Formação PT/RS; José Dirceu ex-presidente PT Nacional e Olívio Dutra presidente de Honra do PT/RS
Em painel, José Dirceu disse que Brasil tornou-se um “país soberano” durante governo Lula
José Dirceu, ex-presidente nacional do PT e ex-chefe da Casa Civil durante o governo Lula, foi a grande atração do Encontro Estadual de Formação Política do partido, ocorrido nesta sexta-feira (10) em Porto Alegre. Uma das principais lideranças nacionais da sigla, Dirceu veio participar do painel “O Mundo Hoje: Análise e Debate da Conjuntura Internacional”, ao lado do presidente de honra da sigla no RS, Olívio Dutra, e do presidente estadual e deputado gaúcho Raul Pont. Em um momento de turbulência, com mudanças na Casa Civil e nas Relações Institucionais de Dilma Rousseff, José Dirceu preferiu o silêncio sobre o panorama político nacional, atuando nos limites estritos de sua agenda na capital gaúcha.
Alguns imprevistos acabaram mudando a programação da primeira noite do evento, o que interferiu na disposição dos convidados na mesa. Maximilien Arvelaiz, embaixador da Venezuela no Brasil, cancelou sua participação, enquanto Rafael Idalgo Fernandez, conselheiro político de Cuba no Brasil, não pôde chegar a tempo devido aos transtornos aéreos causados pelas cinzas vulcânicas do Chile. A solução foi unificar as atividades de abertura em uma só mesa, onde o ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores realizou o único painel da abertura.
No interior do salão, a recepção a José Dirceu foi das mais positivas. Sorridente, atendeu pedidos para fotografias e trocou breves palavras com os que vinham cumprimentá-lo, ainda que tenha se recusado a atender a imprensa durante todo o tempo que esteve no local.
O único capaz de igualar (e até mesmo superar) as luzes de Dirceu foi Olívio Dutra. Festejado ao chegar, o aniversariante foi interrompido várias vezes durante o trajeto até a mesa de debates. Enquanto os demais convidados, inclusive José Dirceu, aguardavam sentados em seus lugares, Olívio seguia sendo solicitado para fotos e abraços, em uma cena que durou vários minutos. A comoção repetiu-se quando, apressado, despediu-se dos colegas de mesa e fez menção de retirar-se. De forma espontânea, a plateia interrompeu o painel aos gritos de “Olívio, Olívio” e cantou um animado Feliz Aniversário para o presidente de honra do PT gaúcho.
O presidente do PT/RS durante a sua fala, comentou críticas sofridas pelo governo de Tarso Genro, em especial quanto ao pacote de projetos apelidado pela oposição de “Pacotarso”. Segundo Raul Pont, há “mais fumaça do que fogo” nas críticas. “Não tem uma vírgula no pacote que esteja em confronto com nosso programa de governo”, garantiu o parlamentar. “Não tem privatização da previdência, o IPE continua público, não tem quebra dos direitos do funcionalismo. Entendemos a postura crítica de alguns setores da esquerda, mas acreditamos que estão equivocados, que não leram corretamente os projetos”. Para Pont, a aprovação do pacote é importante para que o governo possa oferecer “serviços decentes” ao povo gaúcho.
Olívio Dutra, por sua vez, preferiu adotar um discurso firme em defesa dos valores que nortearam a criação do PT – e que, segundo o presidente de honra do partido no RS, não podem ser perdidos. “Não somos o sal da terra, não somos o único partido do campo popular da esquerda e nos orgulhamos de ter outros parceiros andando ao nosso lado”, disse o ex-governador gaúcho. “Temos que buscar a governabilidade, precisamos ter habilidade para a negociação política. Mas sem entrar no toma lá dá cá, sem cair na tentação da barganha por cargos públicos”, acrescentou. E terminou sua fala de forma incisiva: “Nosso partido não pode perder a rebeldia, mas uma rebeldia com causa. Porque nós temos uma causa, e nossa causa é o povo brasileiro”, concluiu, sob uma chuva de aplausos.
“O mundo vai se redesenhar”, diz José Dirceu
Durante a palestra, José Dirceu falou da conjuntura política internacional a partir da ótica brasileira, levando em conta sua experiência no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com ele, o Brasil adotou uma postura mais protagonista, tendo papel importante em um grande projeto que engloba as Américas e os países emergentes de modo geral. “O mundo não é mais como na Era Bush”, disse. Segundo ele, o mundo cada vez mais se divide em dois blocos: os países emergentes, de rápido e intenso crescimento econômico (como o próprio Brasil, a China e a Índia) e as “velhas” potências, representadas pela Europa, Japão e EUA.
“São países que querem congelar o poder dos organismos internacionais, querem enfraquecer a ONU, querem congelar as reformas no sistema financeiro internacional”, declarou Dirceu a respeito das nações identificadas com o modelo norte-americano. “Mas é um esforço que não terá futuro. Em 10 anos, as principais forças econômicas do mundo devem ser EUA, índia, China e Brasil. O mundo vai se redesenhar, e nossa política externa tem que ser capaz de representar o país nesse novo panorama, onde seremos um dos protagonistas”.
José Dirceu comentou também sobre o que considera ações intervencionistas do bloco econômico que une EUA e Europa, como as recentes medidas militares envolvendo a Líbia. Segundo ele, a proteção do povo líbio é o que menos conta na lógica que motiva os bombardeios. “Estão destruindo a infraestrutura do país, apoiando um dos lados em uma guerra civil ao invés de propor um acordo que leve a novas eleições e traga paz”, acusou. “Espero que essa invasão seja o último suspiro desta fórmula de intervenção”.
“Deixamos de ser um país periférico e submisso. Tornamos-nos um país soberano, quase um modelo no que se refere a novas políticas sociais”, empolgou-se ao falar do modelo adotado nos oitos anos de governo Lula, e que encontra sua continuidade em Dilma Rousseff. Sucesso, segundo ele, calcado na adoção de um modelo distante da lógica hegemonista que guia países como os EUA. “Não estamos nos aproveitando das necessidades de nossos vizinhos, e sim os incentivando a crescer também, dentro de uma lógica que envolve todos. Nossa luta é contra as hegemonias, evitando a agressão, a guerra, os bloqueios e as sanções”. Nesse sentido, José Dirceu comemorou a recente vitória de Ollanta Humala nas eleições do Peru, já que sua chegada ao poder desconstitui a tentativa de construir um eixo de direita na América do Sul, unindo Colômbia, Chile e o próprio Peru sob a chancela dos EUA.
Ao final da palestra, foi aberto espaço para perguntas da plateia. Respondendo uma questão sobre uma suposta despolitização da juventude, José Dirceu defendeu que se trata justamente do contrário. “As grandes mudanças são sempre capitaneadas pela juventude”, declarou, dizendo que há uma “luta político-ideológica” que busca convencer os jovens, via mídia, de que não há espaço para mudanças. “Querem dar a versão dos vencidos, e não a dos vencedores. Temos que combater a mídia com mídia também, senão a juventude sempre será influenciada por quem tem hegemonia”.
Em outro momento, descartou a ideia de que o PT teve que abrir mão de seus ideais para alcançar o poder e mantê-lo. “Temos que ser realistas e entender que somos minoria no parlamento e até mesmo na sociedade”, afirmou, causando alguma surpresa nos presentes. “Não é que as alianças nos comprometam, é que não temos maioria na Câmara e no Senado. Mesmo assim, tirando algumas questões mais difíceis como o Código Florestal e a reforma agrária, estamos cumprindo todas as nossas bandeiras. Não há perda de rota com as alianças”, garantiu.
O caos aéreo prejudicou programa do Encontro de Formação já que vários palestrantes ficaram impedidos de chegar a Porto Alegre. O programa seguiu com lideranças gaúchas sem prejuízo de conteúdo e qualidade.
 Portal Sul 21
Por Igor Natusch

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